sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Eterno Rito do Mundo (parte 2)


(Em função da futura publicação do livro Literatura Mística, pela Editora Biblioteca 24X7, este texto, assim como outros publicados neste blog, estará limitado a apenas uma introdução! Obrigado pelo apoio e incentivo, amigos leitores!!)

"Mais suave que a flor quando se trata de bondade;
mais forte que o trovão quando os princípios estão em jogo"
Definição védica de um homem e uma mulher de Deus

Mas, quando menos esperava, minha irmã mais velha soltou um grito, assustada talvez por me ver montada em um cavalo tão grande, tão maior do que nós duas juntas. E, então, para completo desespero de minha mãe, que quase morreu do coração, Raio-Vespertino saiu em disparada, atravessando como um relâmpago castanho o quintal de nossa casa. Meu Deus, eu era todo coração naquele momento. Podia sentir até a vibração de cada moleculazinha de ar que meu corpo afastava. Sem saber o que fazer, agarrei-me instintivamente com toda a força que pude nos arreios, já que meus pés não alcançavam os estribos. Dizia em mim mesma que meu pai era um doido, ao mesmo tempo que o adorava de paixão. Apiedava-me de minha mãe – coitadinha! -, enquanto brigava e venerava minha irmã por aquele grito. E podia adivinhar o sorriso de meu pai ao assistir aquela cena! Eu era a gratidão e a vida em arrebatamento galopante!

Raio-Vespertino foi ganhando velocidade e saltou sobre a pequena cerca, ganhando as ruas. Voei com aquele salto e o vento cortou-me por todos os lados de meu corpo, mas consegui segurar firme e cair de volta, quase estirada, sobre a cela de Raio-Vespertino. Recompus-me com esforço e à medida que ia ganhando estabilidade e confiança, apesar de sentir o medo quase irrompendo de minha pele, comecei a vivenciar tudo aquilo com maior concentração. Mas de uma atenção líquida, volátil – onírica. Os arbustos e as flores passavam velozes sobre mim, dando-me a impressão de estar em um túnel de cores e luz. Percebi que por dois ou três segundos eu tinha estado com os olhos fechados de puro susto. No entanto, tais eram os meus sentimentos, que devo ter continuado a viver Raio-Vespertino com a mesma intensidade e realidade independentemente dos meus olhos estarem abertos ou não. Eu era imaginação e ação correndo de mãos dadas, voando sobre a terra em direção às nuvens. Era coração e mente dando rodopios de felicidade e temor. Era a vida explodindo em vida e mais vida. Uma menina montada em um deus chamado Raio-Vespertino.

Agora sim, com os pés agarrados em suas costelas, mantinha-me em equilíbrio. Conseguia ver cada coisinha no seu detalhe, ao mesmo tempo em que sentia a profunda emoção de voar em Raio-Vespertino. Observei de longe os camponeses trabalhando, a colina que dava para o mar e prosseguia tendo o ritmo de meu coração influenciado pelos cascos que batiam estrondosos no chão de terra. De repente, deu-me uma vontade louca. Mas ela me causava tanto, mas tanto prazer, tanta sensação de liberdade e até mesmo fervor estético, que mesmo sem pensar nisso, dei-me ao luxo de entregar-me a este ato: abracei Raio-Vespertino com as pernas, com força e determinação, soltei as minhas mãos dos arreios e pouco a pouco, como um pássaro que até então nunca antes havia se lançado aos ares, fui abrindo os braços, lenta, lentamente, com medo e com coragem, com angústia e esperança, com tremor e libertação, até que, quando um raio de luz brilhou em meus olhos, desabrochei! Abri-me completamente, vitoriosa, gloriosa, voando em cima de Raio-Vespertino, de coração solto, um imenso sorriso, grande como um arco-íris, os braços abertos, as mãos fechadas, pela garra e pela aflição. Meu coração derramava-se em luz, faiscava emoção, ardia em paixão, explodia como uma estrela. Soltei um grito! Alto, bem alto. E fechei os olhos – não mais pelo susto, mas pela confiança. De olhos fechados, gargalhava sonoramente pelos ares, com o peito aberto, o coração resplandecente, o ar fluindo por todas as partes de meu corpo, plenamente oxigenada, soberbamente livre. Ria com todo o meu ser, gritava com todo o ar de meus pulmões só para, em seguida, manter-me em um silêncio absolutamente redentor. De olhos fechados, lançando lágrimas ao vento como sementinhas cristalinas, eu era a vida cavalgando, uma semente real lançada aos ares, plena e nula, silêncio e explosão. Cada batida de meu coração era uma eternidade. E cada espaço de tempo entre uma e outra – mais uma eternidade. Quando dei por mim, estava quase em pé, brilhando alegria para todos os lados.

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O Eterno Rito do Mundo (parte 1)

(Em função da futura publicação do livro Literatura Mística, pela Editora Biblioteca 24X7, este texto, assim como outros publicados neste blog, estará limitado a apenas uma introdução! Obrigado pelo apoio e incentivo, amigos leitores!!)

"Você nunca apreciará o mundo como deve, até que o próprio mar deslize em suas veias, até que você se encontre vestido de céu, coroado de estrelas, e perceba que é o único herdeiro do mundo inteiro, e mais que isso, porque nele existem homens que são outros tantos herdeiros únicos, seus iguais; até que você possa cantar, e deliciar-se e regozijar-se em Deus como os miseráveis fazem com o ouro, e os reis com os cetros... até que se familiarize com os caminhos de Deus em todos os tempos, como se fossem seu passo e sua mesa; até que você tenha alcançado intimidade com Esse indefinível nas sombras, do qual o mundo foi feito."
Thomas Traherne em Centúrias

Quando criança, bem em frente a minha casa, havia um imenso terreno onde se plantava de tudo. Seu dono era um japonês – homem sério e sisudo, que tinha um grande vinco entre as sobrancelhas. Com suas grandes botinas, caminhava para lá e para cá, ordenando o trabalho de seus empregados. Carregava sempre consigo, preso à cintura, uma espécie de chicote, com o qual ele fustigava o lombo de seu cavalo, com uma força, ao meu ver, extremamente desproporcional ao esforço que se desejava do pobre animal. Chamava-se senhor Suzuki. E, só de vê-lo se aproximar dos seus empregados, descendo de seu vistoso cavalo, eu já sentia medo pelos que ali estavam. Parecia que ele estava sempre a ponto de bater em alguém. Sempre com sua mão direita rondando o seu inseparável chicote. Assim ao menos era como eu o sentia.

Os camponeses eram boa gente. Provenientes de diversas regiões, descendentes de famílias estrangeiras, havia ali alemães, italianos e japoneses. Cultivavam batatas, cenouras, beterrabas, pimentão, alface, couve-flor, tomates, pepinos, alguns grãos. Era bonito vê-los trabalhando, com suas roupas coloridas para protegê-los do sol escaldante, desde cedinho até o final da tarde. Mas o mais lindo era assistir a felicidade e a alegria de todos eles quando chegava a época da colheita. Quando eles adentravam a plantação com enormes cestas – que suas esposas confeccionavam com as próprias mãos, enquanto cuidavam das crianças pequenas e faziam o almoço, para que depois voltassem a trabalhar à tarde.

Eram os momentos mais bonitos de se ver. E, sinceramente, apoiada no parapeito de minha janela, perdia-me contemplando-os nesta dura labuta sob um sol incansável – mas um sol que eles tanto veneravam. Foi inclusive assistindo-os, participando intimamente de todo cuidado e atenção que aqueles camponeses dispensavam à plantação do rude Suzuki, que eu fui aprendendo – mesmo em minha infância – o valor do trabalho, a riqueza em se fazer algo por amor, independente se para si mesmos ou para outros.

Sim, bastava o sol se aproximar novamente do horizonte, que o senhor Suzuki surgia sobre o seu forte mas triste cavalo, como se fosse trazido pelo prenúncio da escuridão. E então, os camponeses, que estavam em roda, imersos em um mágico silêncio, eram interrompidos, abruptamente, como se puxados para fora daquela espécie de espírito de comunhão que eles compartilhavam, dia após dia, conversando e se entendendo com a natureza circundante: com o olhar, com o gesto, com o coração e com a enxada. Tudo o que havia neles guardava um sentido e um mistério. A pele crestada pelo sol, as mãos duras e calejadas, os olhares distantes e calmos, um aspecto sério... ou, quem sabe, sereno.

As crianças cresciam ouvindo as histórias de um passado longínquo, nascidas em terras além-mar. E, quando era-lhes permitido, era possível vê-las correndo em direção às colinas, onde mais abaixo e além se espraiava um soberano e resplandecente mar. Na imaginação daqueles garotos, faziam o caminho inverso de seus pais, sonhando e imaginando o que haveria depois de toda aquela água, próximo à linha que se desenhava no distante horizonte. Ficavam um bom tempo contemplando o mar, assim como eu os contemplava à distância também – da janela de meu quarto, no segredo de meu coração.

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segunda-feira, 26 de maio de 2008

O mergulho


(Em função da futura publicação do livro Literatura Mística, pela Editora Biblioteca 24X7, este texto, assim como outros publicados neste blog, estará limitado a apenas uma introdução! Obrigado pelo apoio e incentivo, amigos leitores!!)

"Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, acorda."
"Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos."
Carl G. Jung

Há anos que vivo morbidamente no cais do porto, avistando as idas e vindas dos imensos e imponentes navios, transportadores de pessoas e mercadorias, que estão sempre em um desfilar ininterrupto diante de meus olhos tão cansados, diante de minha alma perplexa e frustrada, que assiste a tudo sem a mínima consciência de qualquer coisa que seja, sem conhecer-lhes o destino, a história, o sentido. Cada onda que chega aos meus pés descalços rouba-me um ano de vida. E assim ela vai prosseguindo, semelhante ao vaivém das ondas, ao passar das nuvens, ao eterno movimento das coisas... Monótona e desprovida de espírito.

Vivo a olhar para o além-mar, lá onde o sol se deita, exausto de mais um dia de trabalho. Fico a sonhar com as histórias que lá ocorrem, com as lágrimas e os risos, com os dramas, as comédias e até as tragédias. Imagino a cor e a graça dos vestidos das mulheres, o trabalho dos homens, o brincar das crianças, o complexo colorido do céu. Espantosamente, parece-me que aqui nada disso possuo, restando-me somente a névoa e a bruma.

Vez ou outra, aventuro-me a pousar a ponta de meu pé no imenso e gelado oceano, abismo de mistério e escuridão. Entretanto, este meu ato é tão aflitivo, tão desengonçado, tão medonho, que o simples fato de olhá-lo causaria um misto de compaixão e riso a qualquer um que o avistasse.

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sexta-feira, 25 de abril de 2008

O político e o filósofo


(Em função da futura publicação do livro Literatura Mística, pela Editora Biblioteca 24X7, este texto, assim como outros publicados neste blog, estará limitado a apenas uma introdução! Obrigado pelo apoio e incentivo, amigos leitores!!)

"O que não enfrentamos em nós mesmos
encontraremos como destino"
Carl Gustav Jung

Toda manhã, o grande político passava diante da janela do quarto do filósofo da cidade. Aquietava o passo certeiro, como que buscando escutar qualquer barulho vindo de dentro do recinto. Porém, ele nunca escutava coisa alguma. Um dia, não suportando mais sua curiosidade, resolveu bater na janela. E quando o filósofo, homem barbudo e enrugado, apareceu, ele disse:

- Resolva-me uma questão, ó grande sábio, todo dia passo por aqui para encontrar os demais cidadãos na praça da cidade, local onde discutimos e resolvemos os problemas urbanos de maneira democrática e pacífica. No entanto, sempre quando passo aqui, você aí está, janelas fechadas, cortinas cerradas, o silêncio mais completo e profundo. Então lhe pergunto, ó grande sábio, de que serve toda essa sua sabedoria?

- Ó eloqüente senhor - redargüiu o filósofo no mesmo tom respeitoso de seu interlocutor, sorrindo enquanto afagava as barbas grisalhas -, existem infinitas maneiras de se agir no mundo, algumas sob a luz do dia, outras sob a luz da lua. Aqueles que se encontram sob a luz do dia dificilmente verão aqueles que estão sob a luz da lua, tão acostumados que estão com o calor e o fogo das paixões, com a exuberância das cores e as formas do dia. Mas aqueles que estão sob a luz da lua, tendo treinados o seus olhos e o seu coração para essa tênue e fresca luz, podem enxergar os dois mundos.

- Corretíssimo, ó grande sábio - respondeu o político como se fizesse uma reverência -, mas ainda lhe tenho uma questão: de que serve para o povo se os seus olhos estão ou não acostumados com a luz do dia? Não duvido que o senhor possa ouvir e saber das notícias, pensar a respeito delas, tecer suas próprias e altíssimas opiniões. Porém, estando sempre com as janelas fechadas, a casa em silêncio, lhe pergunto: onde estará o cidadão filósofo, cuja presença não vejo nem na praça, nem no templo, nem no mercado, nem em lugar algum?

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Grãos de Areia (parte 2)


(Em função da futura publicação do livro Literatura Mística, pela Editora Biblioteca 24X7, este texto, assim como outros publicados neste blog, estará limitado a apenas uma introdução! Obrigado pelo apoio e incentivo, amigos leitores!!)

2ª Parte: Meditação e Transcendência

"There is that in me - I do not know what it is -
but I know it is in me...
Do you see O my brothers and sisters?
It is not chaos or death - it is form, union, plan -
it is eternal life - it is Happiness."
Walt Whitman

No dia seguinte, ouvia a aula de Clarisse enquanto fazia desenhos em meu caderno. De ora em ora erguia o rosto para ela. E era até engraçado ver a cara de espanto e estupor com que me encarava. Parecia estar dividida entre o desejo de saber por que uma garotinha angelical como eu escrevera tais palavras, e um secreto temor de que, caso viesse a saber, algo poderia mudar para sempre em sua vida. Quando nossos olhos se encontravam, ela logo se inquietava, se perturbava e os desviava dos meus. Até perdia o fio da meada naquilo que estava tratando. No fundo, não queria machucá-la. Recordava inebriada a explosão de cores e de vida que atingira ontem o meu coração. Era ainda a Lívia, mas algo em mim havia mudado. O relógio não me causava naqueles momentos nada mais do que simples indiferença. Se era verdade que o meu coração ainda batia dentro de meu peito, no interior de minhas costelas, verdade também era que algo havia ligado o interior de minha câmara torácica com este mundo em que eu vivia. Ao menos alguns furos, algumas brechas e fendas por onde passavam feixes de luz e sopros de ar. Podia sentir com mais prazer o fluxo e o refluxo de minha inspiração e expiração. Algo borbulhava em mim, mas também vivia uma certa paz, por mais paradoxal que isso possa parecer.

O céu, lá fora, estava nublado. Um cinza chumbo dava uma tonalidade especial para o mundo, que parecia agora mais reluzente, mas de um brilho bem frouxo. As folhas das árvores ganharam um verde bem denso, que se destacava contra o chumbo-azulado do céu. O mundo parecia pesado, apesar de que eu o vivenciava como algo mais real. Podia senti-lo como se estivesse em um outro patamar. Será que Amélie também sentia o mundo desse jeito? Estava curiosa para saber a história dela. Como ela havia começado. Será que a Amélie também tivera uma Amélie em sua vida?

Eu recordava de modo bem vívido tudo o que havia vivido naquela relojoaria. Reproduzia em minha fantasia como devia ter estado o meu rosto, quando fui atingida pelo cantar dos cucos. E eu sorri. E talvez tenha sido o sorriso mais sincero que tinha dado na escola. Não que todos os outros fossem falsos, mas este aqui pude sentir que pertencia mais a mim – ele tinha vindo do mais profundo do meu ser, quase como se pudesse senti-lo a atravessar o meu corpo e a minha alma para, então, irromper em minhas faces, transbordando para o mundo. Alguns sorrisos apenas nascem no rosto, como uma fagulha que está fadada a brilhar para apagar no instante seguinte. Este último sorriso vinha de mais fundo. Era curioso: sentia como se antes não estivesse nem totalmente lá, no mundo de fora, nem aqui, dentro de mim, como se vivesse sempre em uma região intermediária entre o eu e o mundo, entre o meu coração e os outros. Hoje parecia que algo em mim se expandira e, paradoxalmente, estava mais próxima de mim e do mundo, ou os dois se aproximavam, como que atraídos por uma misteriosa e sutil força gravitacional. A realidade de papel queimara no fogo epifânico de ontem, sendo engolida e digerida dentro de mim. Agora minhas células extraiam energia de toda aquela celulose, mesmo eu não sendo uma verdadeira planta.

Será que Amélie era uma pessoa feliz? Trazendo à memória o seu maravilhoso sorriso, enquanto me fitava satisfeita, tive a impressão de que ela crescia cada vez que concedia a alguém esse toque de fogo. Imaginem a alegria dela ao contemplar a chama da vida brilhar forte e poderosa onde outrora havia apenas o vazio, a desesperança e as lágrimas. Ela não me parecia nem mais uma mulher, uma mera mulher. Era quase uma entidade, um ser mágico, miraculoso. Apesar de bastante humana naquele seu jeito tímido e desengonçado. Ao dar a minha mão para ela, no caminho de volta da locadora de vídeo, era como se me ligasse com o mistério do mundo que até então buscara em vão. Era como se estivesse andando em plena cidade urbana de mão dada com um gênio da lâmpada ou alguém de sua família. Um tipo diferente, como que para disfarçar-se na multidão. Afinal, muitos se chocariam ao saber o que se passa na mente e no coração de seus vizinhos... Talvez, por isso, prefiram o mundo de papel, como se escolhessem não rasgar o embrulho do presente com medo do que podem ali encontrar, desejosos de manter consigo uma eterna surpresa frustrada.

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Grãos de Areia (parte 1)


(Em função da futura publicação do livro Literatura Mística, pela Editora Biblioteca 24X7, este texto, assim como outros publicados neste blog, estará limitado a apenas uma introdução! Obrigado pelo apoio e incentivo, amigos leitores!!)

1ª Parte: Sonhos e Reflexões

"E é morrendo que se vive para a vida eterna."
Francisco de Assis

Em cinco minutos a nossa querida irmã Clarisse adentraria a sala de aula para nos agraciar, mais uma vez, com mais um evangélico e altíssimo ensinamento. Tinha eu apenas dez anos de idade, mas já estava enjoada de tudo aquilo que me cercava. Todo dia as mesmas brincadeirinhas estúpidas, as mesmas conversas banais, aquelas aulas que nada diziam sobre mim ou sobre o que quer que fosse. Nunca soube ser criança. Talvez, até então, nunca tenha sabido ser coisa alguma. Olhava meus coleguinhas correndo pela sala, fazendo aquela algazarra tremenda antes de chegar a nossa querida e doce irmã. Hoje sei que era a testosterona que os faziam correr daquele jeito, gritar daquele jeito, brigar daquele jeito. Por isso não os culpo. Culpa é uma palavra estranha... Já naquela época sabia que não havia ninguém para culpar.

- Hei, Livinha - cutucou-me Diana, uma loirinha que vivia a me fazer perguntas, sabe-se lá Deus por quê. – O que você acha do Conrado? Você acha que ele gosta de mim?

Por que as pessoas necessitam tanto de uma aprovação dos outros? Conrado não passava de um garotinho metido à gostosão, jaquetinha de couro plastificado, gel no cabelo arrepiado, perfume barato. Era do tipo que colecionava números para mostrar para os seus colegas e admiradores. Afinal, todos sabem que nessa idade, especialmente nessa idade, os garotos não deixam escapar uma. Eis aqui, novamente, a ação da testosterona... O que eu aprendia em aula até que não era de todo inútil.

- Acho que sim. Você vai convidá-lo para o bailinho?

Bailinho! Imaginem um bando de crianças de um colégio de freiras carolas, ingênuas ou amarguradas, diante de um primeiro bailinho que seria dado por uma de nossas mais abastadas colegas. Qualquer um poderia imaginar as falas, os pensamentos e os desejos que corriam submersos a esse mundo de crianças destrambelhadas e barulhentas. No entanto, há duas semanas dois alunos foram suspensos porque estavam a praticar um comportamento, digamos, desrespeitoso. Na escola apenas era permitido meninos brincarem com meninos e meninas brincarem com meninas. Só faltavam pôr laços em nossas cabeças. Talvez até combinasse mais com os nossos uniformes e com as regras da escola.

- Não, claro que não vou, Lívia. Vou fazê-lo me convidar!

Apenas sorri. Não me lembro se lhe respondi algo. Minha barriga doía, e eu sentia palpitações em meu peito. Olhando para a sala, as pessoas pareciam feitas de papel, como se fossem colagens que corriam e que falavam, tecos de histórias que não se encaixavam, apesar de sempre repetidas, uma miscelânea velha e gasta de fantasias, barulhos e hormônios. O ponteiro dos segundos saltava de casa em casa, desregulado e com esforço. Fez lembrar o meu avô quando caminhava para beber água na cozinha e retornava então para a sala. Não era possível ouvir o seu som, mas ele ressoava dentro de mim – como gemidos eternos e circulares. Atravessava a sala de aula, cortava o ar passando e desviando-se das pessoas. Impassível e indiferente, marcava o tempo enquanto eu tinha meus olhos grudados em seu mecanismo. Seria mesmo a única coisa a ligar uma sala à outra?

Uma maldita bola de papel bateu em minha nuca. Pediram-me desculpas e eu sorri com um sorriso de papel. O garoto gargalhava trazendo à tona um som antigo e distante, como se trouxesse um rádio em seu peito, e eu rodasse uma estação. Dali a instantes, o silêncio de burburinho tornava a reinar em minha volta. Grudei novamente meus olhos no pálido relógio. Como um exército, dali a trinta segundos um batalhão de freiras entrariam por todas as portas do corredor, elas se fechariam e o dia teria prosseguimento. Mas eu não conseguia entender o que aquele relógio queria me dizer. Tinha algo que o diferenciava dos demais. Ele parecia querer gritar algo, escapar de seu eterno destino de relógio. O que um relógio poderia ser, se não fosse um relógio? Tocou enfim o sinal.

Clarisse surgia diante das batentes castanhas da porta. Com sua pele lisa, suas faces finas, olhava-nos com um sorriso bobo e flutuante, como se estivesse a olhar os anjos do céu. Seus olhos claramente não viam o que eu via. Estava longe, mas em um lugar bom. Veio-me à mente que ela seria feita de papel crepom. E como eu não soube o porquê desse pensamento, revoltei-me com a idéia. Sentia-me como se eu fosse um totem a olhar aquela nuvem sobre as paredes azuis de minha classe. E o relógio continuava o seu serviço, com seu barulho surdo e pontuado.

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quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Os olhos de Clara (parte 3)


(Em função da futura publicação do livro Literatura Mística, pela Editora Biblioteca 24X7, este texto, assim como outros publicados neste blog, estará limitado a apenas uma introdução! Obrigado pelo apoio e incentivo, amigos leitores!!)

Protegendo seus olhos da violência da luz que os ofuscava, Clara logo os ergueu, grandes e brilhantes como nunca outrora, guardando tantos matizes de sentimentos, pensamentos e emoções como se fossem uma rica aquarela de mil cores, um selvagem ambiente de mil espécies. E toda aquela flora e fauna, girando e esgueirando-se por entre as pedras e troncos de sombrias e centenárias árvores, dirigiram todos a um só tempo os seus olhares carregados de maldade, escárnio, surpresa, incompreensão, voracidade, dó, desprezo e compaixão para o esposo. E rapidamente se molharam, dando-lhes um aspecto que cintilava à luz dourada emitida pela lâmpada em dezenas de pequenos pontos brilhantes como esmeralda à luz do sol. Estava exasperada, enraivecida, despeitada. Sentia-se ultrajada, como se quisesse que Marcos desvendasse em um segundo o que não o fez em uma vida. De chofre, pôs-se a rir, entre irônica e descrente, entre louca e consternada. E em um salto repreendeu o marido por ter acendido a luz, mas carinhosamente, como num murmúrio a avisá-lo que Ágata dormia tranqüilamente. Ele retornou alguns passos, pois já se aproximava, e tornou a apagar a luz, permitindo, assim, que a luz prateada da lua cheia, que agora despontava por entre as escuras nuvens, deitasse sua cor plúmbea e fantasmagórica no centro do quarto. E os olhos de Clara rapidamente foram tomando o aspecto anterior, crescendo e enovelando a sua negra e abismal pupila. Em seguida, ele acercou-se do berço, pondo as mãos sobre a proteção de madeira que o envolvia, e, sorrindo com satisfação, enternecimento e até orgulho, voltou-se para Clara e disse:

- Ah sim! Admirava a nossa filhinha...

Ao que Clara prontamente respondeu, com um sorriso profundamente enigmático para Marcos:

- Se eu lhe contasse o que fazia, certamente você não acreditaria.

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